A família Soares é uma família como todas as outras, ou seja, o pai, o senhor Duarte, empresário da construção civil, muito estimado pela comunidade, uma joia de pessoa, pode-se dizer isto, tem uma vida dupla... À noite é frequentador da Rua Conde de Redondo e dos seus travestis! Nada que possa manchar o seu bom nome, que ele durante o dia é um verdadeiro macho e excelente pai de família e a ùnica pessoa que poderia dar o alarme nunca o fará... Falo de dona Cesaltina, sua estimada esposa, uma mulher na verdadeira assepção da palavra! Ela é dada pelo padre como um exemplo, ela é figura de proa na caridade da freguesia, ela é a presidente da associação de pais da escola dos seus exemplares filhos... e é também uma predadora nocturna, uma mulher de voraz apetite sexual que fareja na vida da noite os melhores nacos de paio para se saciar! É essa a razão pela qual ela nunca denunciará as ausencias do seu marido, são para ela também uma cobertura... Falta-me agora apresentar os filhos, que são dignos dos pais! Olhem lá para o Osvaldo e digam que não é uma bela estampa de homem! Estudioso, dedicado e leal, um homem às direitas... nem os boatos lançados pelas poucas ex-namoradas de que é impotente conseguem manchar a sua imagem... E a Rosalinda, que não sai mesmo nem à mãe nem ao pai? Ela, mulher de figura esbelta, sucessora do pai nos negócios, é a ùnica desta família de que se diz que pode satisfazer uma mulher...
Esta é a família chave da nossa novela, que irá desenvolver-se diáriamente neste espaço... e sem intervalos de duração maratonial!
Mais uma tarde no gabinete do Senhor Duarte, quente, tão quente que a sua secretária até já desapertou quatro botões da camisa enquanto arrumava qualquer coisa na ùltima prateleira de baixo da estante fronteira ao patrão. Ela bucava um aumento e achava que o seu, para mim excelente, rabo seria um bom apelo aos sentimentos do patrão... Mal ela imaginava que este, que fingia estudar a papelada, pensava de facto num rabo... " O Sampaio da contabilidade é um gajo mesmo bom! Será que ele já notou o meu interesse? Talvez se o aumentar outra vez... Nâo, já é a quarta vez este mês e a décima este ano... e ainda vamos em Março, se calhar é exagerado! Mas comia-o todo!"
O tal Sampaio era um daqueles contabilistas apenas de nome, que se insinua pelo seu aspecto numa empresa e depois apenas faz figura, que o trabalho é coisa nociva para tal espécie... e ele tinha bons contactos, que a mulher do patrão gostava dele, a prova era a dezena de vezes que estiveram juntos no Requinte no ùltimo mês! Devia ser essa a razão dos seus aumentos, pensava o pobre iludido, que nem sonhava que a patroa ia ao tal quarto todos os dias, até já pagava ao mês...
Mas o que o pobre contabilista não controlava era o seu coração... Estava irremediavelmente apaixonado pela filha do patrão! Ele sonhava com ela, inventava desculpas para estar com ela, para lá ir a casa, na esperança que ela aparecesse... Neste preciso momento estava ele fora do seu local de trabalho, à porta do Instituto onde Rosalinda preparava o seu mestrado em gestão empresarial, só para a ver sair! Ela ia cada vez mais ao escritório do pai, passava lá todos os tempos extra escola e ele desconfiava que era por causa dele... O pai, por seu lado, jurava a pés juntos que era para aprender e poder pegar no negócio quando ele se resolvesse reformar. Estavam os dois errados, ela tinha uma razão muito dela para lá ir... Tal como eu, também ela estava fascinada com o rabo da secretária do pai e tentava passar com ela o máximo de tempo! A secretária não desconfiava de nada, apenas achava que as brincadeiras da patroa eram um pouco abusadas, essa mania de lhe estar sempre a apalpar o cú... ainda se fosse o Osvaldo, o patrãozinho... Nem ela sabia há quanto tempo sonhava com o filho enquanto tentava cativar o pai, mas eles deviam ser muito distraidos, não se apercebiam de nada!
Estela, assim se chamava a secretária, tinha uma perdilecção por homens bonitos e viris, como o Osvaldo, e por homens ricos e poderosos, que ele também o era... e se ele não a notasse podia ser que o pai o fizesse... ao menos a segunda metade ele tinha! E ela tinha agora um plano, ia aproveitar a amizade que a filha do patrão lhe dedicava, aguentar mais umas daquelas brincadeiras absurdas e fazer-se convidada para a casa dela, que ia apanhar o patrão a jeito e depois...
Por esta altura o pai Duarte tinha a cabeça em àgua, tentava arranjar uma maneira de sentir bem as partes interiores das calças do Sampaio e pensou em convidá-lo para jantar, que com uns copos bebidos ele soltava o leão... e o Sampaio que se cuidasse!
A mãe Cesaltina também tinha planos para essa noite, também ela paneava começar em casa e tinha já convidado um taxista, que a tinha transportado nesse dia, para jantar lá em casa, que depois ia arrastar aquela pancinha de chauffer até ao Requinte... E seria ela a conduzi-lo até a um destino de prazer!
O Osvaldo também estava ansioso pela noite, que tinha chegado da Suécia uma boneca insuflável e, irónicamente, com elas ele nunca falhava, agora com bonecas de carne e osso, que ele tanto desejava picar uma, a verga perdia a força, não tinha uma reacção capaz de provocar a acção... Tencionava jantar cedo e fechar-se no quarto, que depois ia descarregar na pobre boneca as frustações do dia-a-dia, que andar na faculdade, ver sair miudas de todos os cantos e saber que não consegue picar nenhuma, nem sequer as quantas que se ofereciam, é duro!
Só a irmã não tinha planos para a noite, embora estivesse a pensar a ir uma disco, a Ruby, que lera na net ser de cariz Lesbo... ou seja, mesmo como ela gostava, montes de gajas e nenhum gajo para atrapalhar, que até irritava, ver a quantidade de miudas apetecíveis que andavam com gajos, não se percebia... Ainda por cima são feios, com coisas penduradas, pensava a moça, e tenho que lhe dar razão!
Estava assim tudo preparado para uma noite em grande, na moradia Souselas, embora ainda nenhum dos intrevenientes sonhasse o que o esperava...
Nessa tarde começaram a chegar avisos da tragédia que se avizinhava. A primeira pessoa a sentir o adensar trágico foi a cozinheira, que contava com mais um jantar calmo e começaram a chover-lhe em cima avisos de aumento de refeição, bem como um reforço de requinte para o jantar ( este pedido veio da patroa, que já só pensava em requintes...). A seguir foi a pobre criada, que apalpada pelos dois filhos do patrão, achava tal ser o bastante para garantir o ordenado e que rabujava cada vez que o trabalho apertava. Outro a ser surpreso foi o Osvaldo, que pensava numa noite mais a sós, ou a dois, se contarmos com a boneca...
Com o aproximar da hora do jantar começaram a chegar os convidados. Na sala foram recebidos e começava a cheirar ao bom assado de nome impronunciável que a cozinheira tinha elaborado. Entre os aperitivos e a conversa de circunstância, o gelo começou a quebrar-se e já se conversava alegremente. A criada chamou então para o jantar, ninguém a obrigou a repetir o chamamento, que o paladar queria conhecer aquilo que tanto deliciava o cheiro!
Foi um jantar agradável e bem regado, que o senhor Duarte tinha sempre em casa uma boa provisão das melhores reservas...
Depis do jantar, com os correspondentes digestivos, a boa disposição já se tinha transformado em festa, já a música tocava, já se dançava e cantava e começavam a formar-se os pares, de acordo com os gostos dos convivas... ou seja, estava ali um molho de bróculos! O Sampaio estava cercado pelos patrões mais velhos, se bem que junto à filha do patrão, enquanto esta falava com a secretária, que por sua vez tentava escapar-se para junto do Osvaldo. Este estava calmamente sentado contemplando as pernas da secretária e extremamente focado no seu baixo ventre, à espera de sentir a mais leve palpitação...
O taxista, esse, já se tinha escapulido para a cozinha, que lhe pareceu mais apetecível a carne da criadita, complementada com os condimentos da cozinheira, do que a patroa, que já o tinha largado para o canto!
Começaram então os sussurros, as conversas privadas e crusadas, de tal forma que a trama teve finalmente início... O Senhor Duarte insinuou, junto ao Sampaio, que ia para o quarto, que lhe doia a cabeça. O Sampaio despediu-se cordialmente e dirigiu-se para junto da sua secreta paixão, a Rosalinda, que dizia à secretária as vantagens do pequeno edifício de apoio à piscina. O irmão, que não detectava a menor sensação de acordar da virilidade, também se despediu e anunciou que ia para os seus aposentos. A mãe, talvez alheia pela primeira vez em anos à sua líbido, conversava alegremente com quem lhe aparecia à frente, mas também já estava um pouco bebida demais...
Um a um, sem que ninguém se despedisse, começaram todos a desaparecer, pelo quue até a virtuosa mamã se foi deitar.
A secretária seguiu o Osvaldo e pensou surpreedê-lo, ao entrar no quarto e deitando-se nua enquanto este estava na casa de banho.
O Sampaio lá foi para a casa da piscina, no encalço da jovem, e máscula de gostos, patroa.
O Osvaldo, ao sair da casa de banho e vendo ali deitada a escultural secretária pensou: " Estes suecos fazem com cada obra de arte! A té parece verdadeira... e é parecida com a secretária do meu pai! Que naco!" E saltou-lhe para cima, não se lembrando sequer que ainda não tinha tirado a boneca da caixa...
Cesaltina, ao chegar ao quarto deitou-se, pensando dormir. O senhor Duarte, que já estava meio adormecido, ao sentir um rabo ali espetadinho encheu-se de ardores... E com a memória do Sampaio ainda fresquinha nem permitiu protestos à semi adormecida mulher, que depressa despertou... e contente ficou, que desconhecia tais fogos ao marido!
O Sampaio entrou na casa da piscina, procurou naobscuridade pelo vulto que tanto gostava e, ao vê-la dirigiu-se-lhe. Ela, que devo referir estar a cair de bêbada, suspirou um pouco e refastelou-se numa cadeira ali existente. Para ele era um convite e, sem maiores delongas, partiu para a acção.
Foi uma noite louca, imensa em pormenores que deixo para a vossa fecunda imaginação o completar. Vou falar antes do entrecruzar súbito que se deu de pessoas, a secretária a sair do quarto do Osvaldo, deixando-o adormecido, cruzou-se com o Sampaio, a entrar em casa vindo do jardim. Os dois de sorriso no rosto ficaram ainda um pouco a conversar, até que saiu da cozinha o taxista, ainda a ajeitar a fralda da camisa e com cara de quem tinha comido mais do que aguentava... Mais umas boas noites se trocaram e aparece, em busca de um copinho de leite, o senhor Duarte, que fica surpreendido por ver tanta gente de fora ainda ali... junta-se-lhes, mais por dever de anfitrião que por dever, que as recentes actividades tinham-no deixado cansadito...
E é neste preciso momento que se ouve um grito terrível!
Foi de cortar a respiração, de gelar o sangue nas veias, ou, como tão bem ilustrou imediatamente Sampaio, de fazer um homem borrar-se todo... Correram imediatamente escadas acima, na direcção de onde pensavam ter vindo o som, chegaram à porta do quarto do Osvaldo, hesitaram um pouco, mas logo a abriram... E recuaram, mas não de horror, é que o Osvaldo ainda estava a desforrar-se de anos de impotência, que a partir da terceira "piñada" ele descobrira que afinal não era uma boneca e a partir daí foi sempre a partir, numa sessão non-stop de cortar o fôlego... Como de facto acontecia à pobre secretária, vítima do ardor incansável do, agora viril, Osvaldo... Mas não tinha vindo dali o grito! Logo irromperam escadas abaixo, com o grupo agora acrescido pelo casal que continuava, mesmo em andamento, a ilustrar a paixão...
Então só podia ter vindo do anexo da piscina, aventou alguém... Foram até lá, a medo... Mas antes de lá chegarem encontraram a origem do grito: Jazia no chão, abandonado e inerte, um xamã indiano...
Foi a estupefacção geral... Quem seria aquele intruso, com ar de de mau actor de Bollywood ( se é que há mais algum género...) que teve o mau gosto de se imiscuir na casa de tão considerada gente e abalar a perfeita normalidade das suas vidas ao morrer? Que fosse morrer para outro lado, que exalasse o ùltimo suspiro num quarto que fosse seu, que isto de ir morrer para casa de gente desconhecida é de um mau gosto tremendo...
O Sampaio foi o primeiro a aviltrar:
- Olha, parece que morreu!- tem cá um olho para os pormenores, este fiel empregado...- Mas quem é o gajo?
- Não faço ideia, mas pelo aspecto deve ser de alguma loja de inutilidades!- disse o Sr. Duarte, que tentava perceber o que fazia um morto na sua casa sem ser convidado.
- Pai, agora são os chineses que têm essas lojas, este é indiano!
- Rosalinda, deixa lá que o teu pai é xenófabo, mas ele até tem razão... o morto não pediu ordem para entrar! É de uma falta de consideração tremenda, é inaudito!- disse uma indignada Cesaltina, que via a santidade do seu lar profanada por um xamã que já perdera a chama da vida...
Foi então que se fez ouvir uma pergunta:
- Mas se o gajo gritou antes de morrer, mataram-no aqui... quem é que o matou?- pergunta sensata a do Osvaldo, que merece resposta...
A suspeita instalou-se nesse momento. Trocaram olhares embaraçados primeiro, acusadores depois, de certa aflição no fim... que ninguém queria ser acusado!
Nisto, o xamã suspira, espreguiça-se e levanta-se, sacudindo o torpor de uma noite bem dormida. Instalou-se o pânico nas hostes ( eu tinha que usar esta expressão!) e recuaram todos enquanto olhavam apavorados para o morto que estava vivo! Ele, espantado pela reacção que estava a provocar, disse:
CONTINUA...